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Voz do Passado: Democracia Corinthiana

 
       
 

Vamos contar uma das mais lindas passagens da rica história do Corinthians, enfim o que foi a tão aclamada Democracia Corinthiana

 
  Por:

Voz da Fiel

24/02/2019 10:32:27  
       
 
 
 
       
     
  Foto: Voz da Fiel  
       
  A Democracia Corinthiana foi um movimento surgido na década de 1980 no time brasileiro de futebol Corinthians, liderado por um grupo de futebolistas politizados como Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon. Constituiu o maior movimento ideológico da história do futebol brasileiro. Este foi um período da história do clube no quais decisões importantes como contratações, regras de concentração, direito ao consumo de bebidas alcoólicas em público, liberdades para expressar opiniões políticas e outros eram decididas através do voto igualitário de seus membros, de modo que o voto do técnico, por exemplo, valia tanto quanto o de um funcionário ou jogador. Isso criou uma espécie de "autogestão" do time, algo revolucionário para o contexto em que estava inserido.

Em 1981, o Corinthians vinha de uma péssima campanha no campeonato brasileiro, assim como no Campeonato Paulista. Em abril de 1982, porém, acaba a gestão de Vicente Matheus na presidência, e Waldemar Pires é eleito para assumir o clube. Pires escolheu um sociólogo como diretor de futebol do time, Adilson Monteiro Alves, descrito por Gilvan Ribeiro, no livro "Casagrande e seus demônios", como "um jovem sociólogo com ideias revolucionárias para a administração esportiva". Adílson primava por ouvir os jogadores e outros membros da equipe corinthiana. Somando este fator à presença de jogadores politizados no elenco, como Sócrates e Wladimir, iniciou-se, dessa forma, uma revolução dentro do Corinthians.

A partir daí foi instituído um sistema de autogestão, em que jogadores, funcionários, comissão técnica e diretoria deliberavam sobre as mais variadas pautas - como contratações, demissões e escalação - com base em votações. Um aspecto importante era que todos os votos tinham peso igual.
 
      
   
 

Inovação no Marketing

O Corinthians foi o primeiro clube a utilizar a camisa com dizeres publicitários. Por iniciativa do publicitário Washington Olivetto (vice-presidente de marketing do clube na época e um dos criadores do termo "Democracia Corinthiana", junto com o jornalista Juca Kfouri) o time estampava em suas camisas frases de cunho político, como "diretas-já" ou "eu quero votar para presidente". Isso no período da regime militar, quando os movimentos sociais começavam a se rearticular para a instituição de uma democracia. O movimento causou desconforto entre os militares que, através do brigadeiro Jerônimo Bastos, pediu moderação ao clube.

O resultado desse sistema revolucionário foi próspero. O time chegou de cara nas semifinais do campeonato brasileiro daquele ano, e conquistou o campeonato paulista em 1982 e em 1983. Além disso, durante o período de autogestão, o Corinthians quitou todas as suas dívidas e ainda deixou para o próximo período uma reserva no caixa de US$3.000.000.

 
 
 
 
  A partir de 1984 começa a articulação para criar o Clube dos 13, onde a figura do presidente e sua cadeira no clube eram essenciais para o ingresso. Paralelamente, o time amargou resultados ruins nas temporadas de 1984 e 85, e assistiu a clubes como o Flamengo, com modelo clássico de gestão, destacar-se no cenário nacional.

Logo depois, consolidar-se-ia ainda o futebol moderno vindo da Europa e trazendo meios privados e gerenciais de gestão de clubes. Houve articulação para voltar ao movimento no final dos anos 80, mas agora sem força, face a "nova ordem do futebol mundial" que despontava com a FIFA, UEFA e a Copa do Mundo de 1990. A Emenda Dante de Oliveira também contribuiu para o fim da Democracia. Sócrates, que afirmou só deixar o Corinthians se ela não fosse aprovada, acabou depois que ela não passou pelo Congresso, partindo para a Fiorentina, da Itália.

 
   
 

Os manda-chuvas

Waldemar Pires descentralizou as decisões da diretoria, nomeando vice-presidentes que assumiram setores específicos do clube. Sérgio Scarpelli, por exemplo, cuidava das finanças e Washington Olivetto respondia pelo marketing. O diretor de futebol Adílson Monteiro Alves foi incumbido de fazer a ponte entre os jogadores e a diretoria.

Os líderes

Sócrates, Wladimir e Casagrande preferiam o caderno de política ao de esportes na concentração. Os dois primeiros inventaram a autogestão. Casagrande chegou ao clube quando o movimento já começava a dar os primeiros passos.

Os coadjuvantes

O bom desempenho de craques como Biro-Biro, Ataliba, Zé Maria, Zenon e Eduardo dentro das quatro linhas foi fundamental para legitimar o movimento. No começo, muitos tinham medo de manifestar suas ideias. Com o tempo, ganharam funções fora do gramado.

Turma vip

O publicitário Washington Olivetto nomeou corinthianos famosos, como a cantora Rita Lee e Boni (Manda-Chuva da TV Globo), para um conselho de notáveis e divulgou o movimento no país inteiro. Era tão apaixonado pelo clube que dispensou o salário.
 
 
 
 
  Os vilões

O goleiro Leão e o cartola Vicente Matheus foram os principais inimigos da nova filosofia. Leão fechou o gol nas finais do Paulista de 1983, mas saiu com fama de contrarrevolucionário.

O, então na época, ex-presidente Vicente Matheus tumultuou o ambiente para tentar voltar à presidência.

"Era uma democracia que poucos ditavam regras, e muitos obedeciam. Então partia daí, que não era uma democracia, era uma condução. Existiam os comandantes da democracia, tinha o Magrão (Sócrates), você e Wladimir vinha no bojo de tudo isso, então formavam aqueles quatro ou cinco que comandavam, e os outros ficavam quietos” – disse Emerson Leão quando entrevistado pelo agora então comentarista Casagrande.

"Essa democracia é um ato político e eu nunca me preocupei nada com isso, com ditadura, com político. Eu me preocupava em crescer profissionalmente, formar uma família e através disso me definir como cidadão", completou Leão na mesma entrevista.

 
   
 

No mês em que o Dr. Sócrates completaria 65 anos resolvemos usar a coluna Voz do Passado para contar um pouco sobre a Democracia Corinthiana, uma singela homenagem para o eterno ídolo do Corinthians e principalmente de muitos dos Corinthianos que tiveram o privilégio de vê-lo jogar com a camisa do Timão.

Quem dúvida da importância desse movimento e da grandeza do Dr. Sócrates, nos anos 80 muitos torcedores de clubes rivais passaram a simpatizar e até torcer pelo Corinthians, algo inimaginável nos dias de hoje. A Democracia Corinthiana foi algo divulgado internacionalmente e o Corinthians passou a ser conhecido fora do país.