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Voz do Passado: anos 50 a década de ouro

 
       
 

O esquadrão de Cláudio, Luizinho e Baltazar (entre tantos outros) é uma das melhores equipes, ou talvez a melhor, do Corinthians e que você provavelmente nunca ouviu falar

 
  Por:

Voz da Fiel

16/01/2019 13:56:28  
       
 
 
 
       
     
  Foto: Voz da Fiel  
       
  Uma das piadas mais infames (piada mesmo, pois isto não pode ser levado a sério) dita por torcedores rivais e por alguns jornalistas esportivos mal informados ou até mal intencionados é a frase de que o Corinthians “nasceu” somente em 1990, quando se tornou campeão brasileiro pela primeira vez e assim “virou um time grande”.

Qualquer um que desconheça a história do Corinthians e fizer uma pesquisa rápida irá constatar que a história do time do povo é marcada por grandes feitos desde a década da sua inauguração e ao longo do tempo o Corinthians mostrou que o clube fundado por operários nasceu para se tornar um gigante esportivo, principalmente um dos maiores times do futebol mundial.

Hoje, na coluna Voz do Passado, vamos falar sobre o time espetacular dos anos da década de 50 e com isso dar luz a uma das histórias mais incríveis que o Corinthians e seu esquadrão escreveram na história do futebol brasileiro.

O domínio do Corinthians foi absoluto na década de 50

Além de conquistar três títulos de campeão paulista (1951, 1952, 1954) sendo este último o do IV Centenário, também levantou vários outros torneios estaduais como o Torneio Início do Campeonato Paulista de 1955, Taça Cidade de São Paulo de 1952, Taça Prefeitura Municipal de São Paulo de 1953, o Torneio das Missões/Taça Tibiriçá de 1953, a Taça Charles Miller de 1954, Taça dos Invictos em 1956 e 1957, o Torneio de Classificação do Campeonato Paulista de 1957. Em nível interestadual também venceu três Torneios Roberto Gomes Pedrosa (1950, 1953, 1954) e o Torneio de Brasília de 1958.

As glórias desse esquadrão foram além das fronteiras do estado e do Brasil, com conquistas como a pequena da Taça do Mundo (1953) e excursões bem sucedidas no exterior.

Vamos à década anterior para entender melhor como o Corinthians chegou a essa década de 50

Apesar de o Corinthians começar bem os anos 40 levantando o título do Campeonato Paulista de 1941 e se sentir em casa no recém-inaugurado estádio do Pacaembu, o Timão amargou um período de jejum de títulos que perdurou por todo o resto da década de 40.

No final dos anos 40 o clube resolveu ir às compras e começou a formar o que seria o maior esquadrão de todos os tempos: Cabeção, Idário, Roberto Belangero e Luizinho mais conhecido como o “Pequeno Polegar” por causa da sua baixa estatura (1,64m), porém com uma habilidade absurda para driblar qualquer adversário, capacidade de fazer lançamentos precisos e sempre chegando ao ataque como elemento surpresa para marcar muitos gols.

Os craques recém-contratados se juntaram a Baltazar e Cláudio e o entrosamento e entendimento dentro de campo não demoraram muito para acontecer. Em 1950 o grande elenco do Corinthians, comandados pelo trio Cláudio; Luizinho e Baltazar, levou o Timão a conquistar o Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1950.

O torneio que teve o início em 1949, era visto como fundamental para encerrar de vez o jejum de taças e o Corinthians fez bonito, marcando 20 gols em apenas sete jogos e terminando a disputa como campeão, isso era o que o clube tanto precisava para retomar o prestígio perdido e assim mostrar a todos que os tempos agora eram outros: o time do povo estava de volta às glórias e a muitos gols!
 
      
   
  Ainda em 1950 o Corinthians começou a lapidar seu esquadrão, com a entrada do técnico José Castelli (o Rato), o Corinthians foi ficando conhecido como um time com grande força física e de muita raça e entrega em campo de seus jogadores, porém sem deixar de lado a notável técnica e os lances geniais protagonizados pelos craques do time.

Como tudo na vida tem um começo, aqui (talvez) começava a maior característica que hoje todos nós torcedores cobramos de nossos jogadores, “vamos jogar com raça e com coração”. Essa metodologia de jogo implantada pelo técnico Rato passou a ser a característica de jogo de todos os times do Corinthians ao longo das décadas seguintes até os dias atuais.

Em 1951, um promissor goleiro do Jabaquara chamou a atenção do clube e acabou sendo contratado como contrapeso pela negociação do meio-campista Ciciá, o nome desse arqueiro é Gylmar dos Santos Neves, que veio a se firmar como titular apenas em 1952.

No mesmo ano de 1951 o Corinthians foi em busca do Campeonato Paulista de forma avassaladora engatilhando vitórias seguidas e só conhecendo a sua primeira derrota na 14ª rodada. Após mais cinco vitórias consecutivas o Timão sofreu uma derrota inesperada para a Lusa, perdendo o jogo por 7 a 3 e a culpa caiu nos ombros do goleiro Gylmar. Diante de muita pressão, o técnico Rato não teve escolha e afastou o jovem camisa 1 que só voltaria à meta corinthiana seis meses depois.
 
 
 
 
  Esse revés não abalou os jogadores que mostraram muita superação e com duas rodadas de antecedência o Timão levou o caneco com um incrível ataque de 103 gols. Hoje muitos não valorizam o Campeonato Paulista, mas na época esse era um dos principais torneios de futebol do Brasil, porém, ainda em 1951, o Corinthians escreveu um capítulo fantástico na história do futebol brasileiro.

Em 1950 o Brasil é o país sede da Copa do Mundo, como todos nós já sabemos a seleção do Uruguai se tornou bicampeã mundial em pleno Maracanã. E porquê isso está sendo citado em meio a história do Corinthians da década de 50? Em 1951 a seleção uruguaia fez uma festa para comemorar o aniversário dessa conquista, o Maracanaço, e foi assim que o Corinthians fez o seu primeiro jogo no exterior.

A seleção do Uruguai campeã do mundo de 1950, com pelo menos oito titulares campeões mundiais em campo, não foi párea para a seleção do Corinthians.

O jogo, realizado no dia 30 de junho de 1951 no lendário estádio Centenário no Uruguai, teve vitória corinthiana por 4 x 1, com gols de Baltazar aos 17 e 24, e Luizinho aos 37 do primeiro tempo. Nelsinho fez o quarto gol aos 23 do segundo tempo. A. Garcia marcou o único gol dos uruguaios. Um ano depois o fato se repetiu com dois soberbos gols de Cláudio “O Gerente”, o Corinthians derrotou mais uma vez os uruguaios, desta vez no Pacaembu e mais uma vez a cidade ficou em festa graças ao Todo Poderoso Timão.
 
   
  No primeiro semestre de 1952, o Corinthians realizou a sua primeira excursão internacional, passou quase dois meses visitando quatro países. Em terras europeias o Corinthians superou todos os recordes de jogos invictos em gramado exterior. A excursão marcou a volta do goleiro Gylmar com atuações memoráveis ao aproveitar as ausências de Cabeção (machucado) e Bino (deixou o clube). O Corinthians disputou 16 jogos, venceu 12, empatou três e perdeu apenas um.

As 16 partidas realizadas foram realizadas na Turquia, Suécia, Dinamarca e Finlândia. Desta excursão, dois amistosos aconteceram na Suécia, vale lembrar que em 1950 a Suécia era uma grande potência no futebol, na Copa do Mundo de 1950 ela ficou em 3º. O primeiro jogo foi contra o AIK, campeão da Copa da Suécia em 1950, terminou empatado por 3 × 3 com gols alvinegros de Cláudio e Jackson(2). A escalação completa foi: Gilmar; Murilo e Julião; Idário, Goiano e Roberto; Cláudio, Luizinho, Gatão, Jackson e Colombo (Carbone).

No segundo jogo o adversário foi o Djurgårdens, vice-campeão da Copa da Suécia de 1951, o Timão venceu 2 × 3 com gols de Jackson, Goiano e Cláudio, de pênalti. A escalação completa nesta partida: Gilmar; Murilo e Julião; Idário, Goiano e Roberto (Lorena); Cláudio, Luizinho, Carbone (Gatão) (Nardo), Jackson e Colombo.

Ainda na Suécia houve uma goleada sensacional por 10 a 1 sobre uma seleção regional do país. No último dia, o governo sueco concedeu ao Corinthians o título “A Fita Branca do Futebol Brasileiro”, uma homenagem pelos bons resultados.

Em sua volta ao país o esquadrão corinthiano foi recepcionado no Brasil por 30 mil aficionados no aeroporto que depois se juntaram há mais de 70 mil pessoas com posterior apoteose em uma vibrante carreata.

Ainda em 1952 o Timão foi bicampeão paulista e conquistou a posse definitiva da antiga Taça Cidade de São Paulo. O fato relevante é que a conquista veio após uma goleada do Corinthians por 5 x 1 no Palmeiras, com quatro gols de Carbone e um de Cláudio. Essa foi a maior goleada do Corinthians sobre o rival, foi quando o meia Luisinho literalmente sentou em cima da bola diante do palmeirense Luis Villa. Muitos dizem que esse lance não passa de uma lenda, mas muitos corinthianos antigos gostam de lembrar o fato como verdadeiro.

Em 1953 o esquadrão alvinegro foi à Venezuela para a disputa da Copa Presidente Marcos Pérez Gimenez/Pequena Taça do Mundo de 1953 conquistada pelo Corinthians na Venezuela de forma invicta, contra o Barcelona (Espanha) de Ladisláu Kubala, e também o Roma (Itália) de Alcides Ghiggia (carrasco do Maracanaço).

Ao chegar de volta ao Brasil, houve uma apoteose no Vale do Anhangabaú, com dificuldades para os jogadores corinthianos descerem do avião que também eram esperados por uma multidão incalculável de admiradores e torcedores. Além da realização de um cortejo que seguiu do aeroporto de Congonhas até o Jabaquara, passando por Vergueiro – Av. Paulista-Consolação – Av. São João e finalmente Vale do Anahangabaú.
 
 
 
 
  Ainda no mesmo ano o Corinthians levantou novamente a taça de Campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1953.

A cidade de São Paulo comemorou seus 400 anos em 1954 e, para celebrar data tão importante, a Prefeitura bolou uma agenda especial que contou com inaugurações de obras — o Parque do Ibirapuera, o Monumento das Bandeiras, a nova Catedral da Sé — e também com a disputa do Campeonato Paulista de 1954, o hoje pouco falado "Paulista do IV Centenário".

O torneio, de pontos corridos, foi decidido na penúltima rodada como roteiro de filme: Corinthians contra Palmeiras, com mais de 50 mil torcedores lotando o Pacaembu. Os alvinegros precisavam apenas do empate, enquanto os rivais precisavam da vitória para seguir para a última rodada.

Mesmo com o Palmeiras indo para cima, o Corinthians marcou o primeiro gol da partida com uma cabeçada de Luizinho, do alto de seus 1,64 metros de altura. O Palmeiras empatou no início do segundo tempo com Nei e pressionou o restante do jogo. Mas o goleiro Gylmar, que viria a se firmar como um dos maiores da história em sua posição estava inspirado e garantiu o título corinthiano.

Para Celso Unzelte, historiador, jornalista e professor, esse foi o ponto alto do clube no período. "Embora hoje as pessoas não valorizem, o mundo dos torcedores naquela época era a cidade de São Paulo, não existia internet, celular, automóvel fácil, então a vida das pessoas estava na própria cidade e o Campeonato Paulista fazia parte disso", diz. "A cidade estava orgulhosa do seu aniversário e havia a ideia de que o campeão do IV Centenário entraria para a história e ficaria marcado por cem anos”.

Ainda em 1954 o Corinthians levantou pela terceira vez a taça do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

“Sem dúvida esse foi o primeiro time a ter uma hegemonia nacional", afirma Unzelte. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa (Rio-São Paulo) era o torneio máximo do país, já que não havia nenhum título nacional em disputa, e desde a volta do interestadual, em 1950, o Corinthians venceu três das suas cinco primeiras edições.

Na época, a conquista do Rio-São Paulo era considerada por clubes, torcida e imprensa realmente como o torneio nacional, tanto que as faixas de campeões tinham a inscrição de campeão do Brasil.
 
   
  Vejamos outras conquistas pela equipe multicampeã do Corinthians nessa década:

O Torneio Internacional Charles Miller de 1955 foi considerado a quarta edição da Copa Rio e o Corinthians conquistou mais este troféu para a sua galeria contra o Benfica, base da Seleção Portuguesa.

Há também a Copa do Atlântico de 1956 que foi um torneio internacional disputado quatro anos antes da criação da Libertadores. No Pacaembu, o Corinthians havia eliminado o Santos (que era o atual campeão paulista e chegaria ao bi naquele ano) nas quartas de finais, e o São Paulo na semifinal.

Corinthians e Boca Juniors deveriam ter decidido a Taça do Atlântico, porém não existem registros confiáveis sobre a realização dos jogos entre alvinegros e bosteros, embora constem informações (Wikipédia) em que o Corinthians teria vencido o Boca Juniors por 3 a 2, na Bombonera, no dia 19 de julho de 1956, o Corinthians relaciona este torneio em sua galeria de títulos.

Este inesquecível time do Corinthians ainda recebeu: o Troféu Bandeirante de 1954 e a Taça Mais Querido do Brasil em 1955.

Recebeu títulos honoríficos como o de Campeão Honorário do Brasil pelo Torneio Rio-São Paulo de 1950, recebeu a Fita Azul do Futebol Brasileiro em 1952 em virtude do sucesso da excursão ao exterior, retornando com uma grande série invicta, recebeu também o título honorífico de Campeão Internacional dos Invictos em 1954 e Campeão dos Centenários (1922 e 1954), referente à conquista de títulos no Centenário da Independência do Brasil, assim como, do IV centenário de São Paulo, respectivamente.

É muito difícil tentar descrever em uma única matéria o quanto foi espetacular esse time do Corinthians nos anos 50. O fato de o Corinthians amargar o famoso jejum de 23 anos sem vencer o Paulista colocou uma sombra sobre esse passado glorioso e de supremacia absoluta do Timão sobre todos os demais times.

E você corinthiano quando escutar de alguém essa falácia sobre o Corinthians “nascer” somente em 1990, relembre as conquistas e feitos desse time espetacular e que seguramente podemos afirmar: esse foi o maior time do Corinthians de todos os tempos!