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Estádio do Timão beneficiou o bairro de Itaquera

 
       
 

projeto ignorou problemas urbanísticos, diz especialista. Policiamento é intenso apenas nos dias de jogos, segundo moradores.

 
  Por:

Voz da Fiel

08/06/2018 16:08:32  
       
 
 
 
       
   Estádio do Timão beneficiou o bairro de Itaquera   
  Foto: Vivian Reis/Globo  
       
  Quatro anos após um investimento bilionário para a Copa de 2014, o entorno da Arena Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, beneficiou o tráfego da região, o mercado imobiliário e o Shopping Metrô Itaquera. No que diz respeito à segurança e à aridez do bairro, pouco mudou.

As transformações na região, localizada a 20 km do centro da capital, começaram em outubro de 2011, quando o futuro estádio foi anunciado como sede dos jogos do mundial na capital paulista. Além do campo de futebol, as diretrizes da Fifa exigiam investimentos concentrados na logística dos espectadores.

O G1 visitou a região e ouviu moradores e profissionais que atuam no bairro, que confirmaram mudanças positivas naquele trecho de Itaquera. Os moradores consideram que a estética do bairro está melhor com a maior demanda de visitantes no shopping e nos dias de jogo.

Um porta-voz do Shopping Metrô Itaquera relatou o aumento expressivo de consumidores no local e o Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP) aponta valorização dos imóveis, em um momento em que os preços caíram no restante da cidade.

Por outro lado, o arquiteto, urbanista, economista, cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP) João Sette Whitaker explica que o bairro tem desafios urbanísticos antigos a transpor, como a sobreposição de grandes equipamentos, como o estádio, que tornam a região árida para os pedestres.

Além disso, a análise de dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) indica que a produtividade policial aumentou na região às vésperas da Copa do Mundo, mas voltou a cair após o evento.

Fácil acesso e movimento

"Moro aqui desde criança, e a região mudou 100% com a Copa. Não havia fácil acesso para Artur Alvim, Radial Leste, Avenida Calim Eid. Hoje parece que estamos no Morumbi. Temos esse lugar lindo para curtir", diz Neno Carmo, de 37 anos, que trabalha como segurança à noite e aproveitava a tarde no espaço ao lado do estádio, que se tornou um mirante com vista para a estação Corinthians-Itaquera do Metrô.

"A vida das pessoas mudou por causa do movimento. Em dias de jogos, as ruas viram estacionamento, a molecada olha carro, há quem venda bebida e churrasquinho. O bairro se torna bastante comercial nesses dias. Alguma coisa melhorou, sim", afirma o taxista Paulo Ricardo.

A reportagem esteve nas imediações da Arena Itaquera e constatou a mudança da paisagem que, além do imponente estádio, possui uma grande unidade da Fatec, um enorme terminal de ônibus e trens e o Shopping Metrô Itaquera.

Os equipamentos de grande porte, no entanto, estavam relativamente isolados entre si, não apresentavam fluxo de pedestres, nem bares e restaurantes.

O urbanista João Whitaker explica que este é um problema antigo. "A maior dificuldade é que se trata de uma região monofuncional. Ao longo dos anos 60, 70 e 80 foram construídos grandes conjuntos habitacionais por ali, o que tornou Itaquera um bairro essencialmente dormitório", explica o professor.

"Os projetos desenvolvidos não dialogam com o espaço público. É uma sobreposição de equipamentos que resulta em uma área difícil de transpor. No final das contas, há grandes extensões vazias, pouco comércio, pouco serviço, pouca praça, pouca área pública. É uma região que apresenta essa aridez por conta dessa inadequação urbana", continua João Whitaker.

Para o professor, o projeto do estádio seria uma oportunidade de ajudar a resolver o problema urbanístico, mas as exigências da FIFA não atentaram a essa demanda.

"É uma área com desníveis e escadas, com isolamentos que necessitam de um projeto que crie trajetos, circuitos, parques ou áreas públicas. O projeto da FIFA, ao contrário, exigiu, por exemplo, um enorme estacionamento, que torna a região ainda mais árida e alimenta essa fruição urbana", conclui.

Trânsito

A mudança mais significativa foi no trânsito da região. O governo do estado investiu R$ 610,5 milhões em obras de mobilidade urbana no entorno do estádio do Corinthians, com a construção de um túnel, duas avenidas, um conjunto de viadutos, uma alça de ligação com a Avenida Jacu-Pêssego no sentido Aeroporto e uma passarela de pedestres.

O taxista Paulo Ricardo, de 30 anos, trabalha na região há pelo menos 10 anos e confirma a melhoria no tráfego após as obras.

"Foi ótimo para o trânsito, que era travado. Nem mesmo em dias de jogo há congestionamentos. O túnel leva para o centro de Itaquera, e os viadutos dão acesso para todo lugar, ajudando tanto no deslocamento entre os bairros, quanto para grandes avenidas, como Aricanduva e Itaquera", afirma.

A passarela de pedestres, no entanto, foi vista vazia pela reportagem no período da tarde e é considerada perigosa por moradores da região. "Já passei naquela passarela, mas é muito perigosa e sinistra. Se você passar ali é quase certeza de que será roubado, independentemente do horário", disse Paulo Ricardo.

Além disso, a gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab previa a construção de uma rodoviária em Itaquera. Os moradores da região apontaram à reportagem uma área interditada para obras, que seriam da rodoviária, ao lado do terminal de ônibus.

A Prefeitura de São Paulo foi questionada se o projeto da rodoviária estava em andamento e respondeu, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb), que não há obras para um terminal rodoviário, mas, sim, urbano.

"As obras no terminal Itaquera foram divididas em duas etapas – a primeira, entregue em junho de 2014 para atender a demanda da Copa do Mundo, com a ampliação do terminal, e a segunda etapa, que ainda está em andamento, prevê a construção de um novo terminal", diz a Siurb. A pasta acrescenta que "por falta de recursos, a gestão encerrada em 2016 praticamente paralisou a execução das obras do terminal Itaquera, que retomou seu ritmo nesta gestão. As obras devem ser finalizadas em 2021".

Comércio

O comércio no entorno da Arena Corinthians é bastante escasso do ponto de vista do pedestre. Para comer ou utilizar um banheiro, ele precisa caminhar pelo menos 2,5 km durante cerca de meia hora para chegar ao Shopping Metrô Itaquera ou caminhar 1,5 km durante cerca de 20 minutos até acessar o terminal de ônibus de Itaquera, onde há concentração de vendedores ambulantes.

Para o shopping, no entanto, a Arena Corinthians trouxe o dobro de tamanho, de consumidores e de lojas, segundo o gerente de marketing do centro comercial, Fabio Quintana.

"A Copa trouxe uma estrutura viária para a região e um boom imobiliário – ou seja, mais gente circulando por aqui e uma grande visibilidade para o shopping. Antes do evento tínhamos uma média de 60 mil visitantes por dia e, hoje, quatro anos mais tarde, temos uma média de 80 ou 85 mil. Em dias de jogo, esse fluxo aumenta para 100 mil consumidores", afirma Quintana, que trabalha no local desde a sua inauguração, em 2007.

Em outubro de 2017, o shopping inaugurou uma expansão com um investimento de R$ 275 milhões, dobrando o tamanho que tinha, com a construção de um edifício garagem com três pavimentos, que recebe cerca de 3 mil carros em dias de jogo e uma praça de alimentação que se transformou em ponto de encontro de torcedores. O número de lojas saltou de 150 para 300 nos últimos quatro anos.
 
      
 

 
  Segurança

O G1 analisou a produtividade policial no 32º Distrito Policial (DP) de Itaquera e no 103º DP da Cohab Itaquera entre 2010, quando tiveram início os primeiros anúncios do Governo Federal sobre a Copa do Mundo no Brasil, e 2017, último balanço anual feito pela SSP baseado no total de inquéritos policiais instaurados.

Entre 2011 e 2013, de quando Itaquera foi anunciada como sede da Copa em São Paulo até a véspera do evento, ambas as delegacias apresentaram aumento significativo de produtividade, com aumento de investigações iniciadas de 50,5% no 32º DP e 65,7% no 103º DP.

De 2013 até 2017, por outro lado, a produtividade policial caiu no 32º DP de 1025 inquéritos instaurados para 647, número similar àquele antes da Copa (573), e no 103º DP caiu de 824 para 489 investigações iniciadas, número inferior ao de antes do evento (612).

A opinião dos moradores reflete os números. "Sinceramente, a segurança está como sempre esteve por aqui. Só vimos muita polícia durante a Copa do Mundo e em dias de jogos. Acabou o jogo, sumiu a polícia", disse o taxista Paulo Ricardo.

Marisângela e Moacir Lima Serejo, empresários que possuem um estacionamento na região, reconheceram o aumento do lucro em dias de jogos, mas também relatam a falta de segurança nos outros dias da semana.

"Não vejo muito policiamento não. Fico sabendo é de muito roubo de fiação elétrica na região; no sentido de roubo e assalto não mudou nada. Aqui é um bairro esquecido. O estádio é mesmo muito bonito e tem visibilidade, mas é como se a comunidade daqui não existisse", opina Marisângela.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) diz que as polícias Civil e Militar "vêm atuando constantemente no combate à criminalidade na região de Itaquera" e utilizou dados diferentes daqueles apontados pela reportagem para indicar um aumento da produtividade policial.

"Ao contrário do mencionado, as produtividades das três delegacias que abrangem à região de Itaquera (32º DP, 65º DP e 103º DP) foram estáveis, durante o período analisado. Nos anos de 2015 até 2017 a quantidade de pessoas presas por ambas as polícias aumentou 12,3% em comparação com os anos de 2012 a 2014. Nesse mesmo período se percebe a estabilidade na quantidade de armas de fogo retiradas das ruas", destaca a SSP, acrescentando que "a criminalidade também caiu no bairro - nos últimos três anos os homicídios dolosos reduziram 36%, os roubos de veículos caíram 7%, os furtos de veículos 15,5% e os furtos em geral 2%".

Cultura

Entre as promessas feitas pelo governo do estado para a competição estavam a instalação de uma Fatec, uma Etec e uma unidade do Senai.

Em nota, o Senai/Sesi informou que “houve a doação de uma área na região depois da Copa”, mas a unidade não foi construída ainda.

A Fatec foi inaugurada em 2012 e a Etec em 2015 ao lado da Arena Corinthians e ambas as unidades atendem a um total de aproximadamente 2 mil estudantes. A diretora da unidade da Fatec afirma que pelo menos 95% dos alunos moram na Zona Leste de São Paulo.

“Aqui há outras duas Fatecs, mas esta tem uma estrutura maior e mais imponente, que mudou a cara da região. É uma área periférica e não tinha nada. A unidades trouxeram outro status”, avalia a professora Ana Cristina Barbosa Dias de Carvalho.

A diretora da Fatec Itaquera acredita que também houve uma mudança cultural na região. “Este pedaço mudou muito – o aquecimento do mercado imobiliário trouxe outro perfil de morador e muitas pessoas de bairros distantes daqui passaram a frequentar a região por conta dos jogos. Isso traz uma mudança até de comportamento à comunidade”, afirma a professora.

Todos os cursos da Fatec e da Etec são gratuitos, tanto os técnicos quanto de idiomas, de preparação para o vestibular, de entrevistas de emprego ou de informática para a terceira idade, entre outros.

A diretora, no entanto, reconhece que faltam mais investimentos. “Precisa melhorar? Precisa. Existe uma carência financeira muito grande, uma carência de infraestrutura, pois há áreas de risco e alagamentos, falta qualificação profissional. Os empresários já sinalizaram uma ansiedade de modificar a região, mas são necessários mais cursos para qualificar a mão de obra”, aposta.

Mercado imobiliário

Muitos moradores de Itaquera relataram um aumento significativo nos preços dos imóveis da região após a Copa de 2014. Dados do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP) confirmam.

Em 2011, quando o bairro foi anunciado como sede da Copa na capital, o preço médio do metro quadrado era de R$ 3 mil; em 2014, o valor saltou para R$ 5,2 mil; em 2017, a média era de R$ 4,9 mil. No entanto, o preço médio do metro quadrado lançado em São Paulo gira em torno de R$ 9 mil.

O economista-chefe do Secovi-SP, Celso Petrucci, diz que a variação dos preços está relacionada à expectativa criada pelo evento, mais do que ao que foi construído de fato.

“Embora as obras de mobilidade tenham sido feitas e Itaquera seja o melhor bairro da Zona Leste, puxando o desenvolvimento de Guaianases e São Miguel Paulista, o aumento de lançamentos e do valor do metro quadrado em Itaquera se deve ao destaque que a construção do estádio ganhou”, afirma Pretrucci.

“Em geral, os preços dos imóveis caíram, mas nos últimos 10 anos Itaquera foi um dos bairros que mais se valorizou. Além disso é uma das regiões onde há mais lançamentos do Minha Casa, Minha Vida, que suporta esse valor médio de metro quadrado e têm grande aderência entre os consumidores”, completa.

 
      
   
 

 
 
Avaliação desta notícia vai para: Vivian Reis (Globo)